6/17/2017

Um sábado frio e cinzento com café e sem você

É sábado. 
O dia está cinzento. 
A cidade está fria. 
O café continua quente. 
Você continua longe.

É sábado.
A chuva começa a cair lentamente.
O meu casaco é fino.
O café está no final. 
Você não ligou. 

É sábado. 
Raios e lampejos me assustam.
O edredom enrolado no meu corpo não parece adiantar. 
O café acabou. 
Você sumiu. 

4/02/2017

Detalhes

Eu queria ter ficado. Eu gostaria de poder ter ficado. Eu queria ter tido a escolha de ficar, mas escolhas, volta e meia, independem do nosso querer e é por isso que eu precisei partir. 

Toda vez que chove eu lembro daquele dia. Ainda ouço sua voz ecoar na minha mente perguntando, retoricamente, a razão de me desfazer de tudo aquilo. Você nunca entendeu minhas verdades, mas como poderia? Eu nunca lhe contei metade daquilo que se passava em minha mente. Mas se eu contasse, você seria capaz de entender sem julgar ou sem me fazer repensar nas minhas escolhas?

Suas lágrimas se confundiam com a chuva forte. Era a mistura perfeita de gélido e quente, pude perceber esse detalhe quando pus, em vão, meus dedos abaixo dos seus olhos numa tentativa frustada de seca-las. Você não me olhava diretamente nos olhos. Acho que não conseguia. Tudo bem, eu não te olhei nos olhos no dia em que precisei partir. E isso ainda dói. 

Suas mãos trémulas encontravam as minhas toda vez que eu alcançava seu rosto, nunca soube se pelo frio trazido pela chuva forte ou aquilo era um sinal de medo de me perder. Você nunca me contou se tinha medo de me perder, acho que não é o tipo de coisa que se pergunta ao outro e por isso eu nunca soube. Contudo, eu nunca te disse que tinha medo de te perder, também. 

Seu casaco estava ensopado quando você me envolveu nos seus braços. Ainda parecia quente ali dentro, mesmo com o tempo caótico que caía sobre nós. Você deitou sua cabeça no meu ombro e instalou um beijo em meu pescoço. Ainda lembro de me forçar a manter os olhos abertos. Aquilo, aquele pequeno ato de fechar os olhos, poderia mudar todo o rumo desta história. 

Você se afastou e entre os passos cambaleantes olhava para trás. Eu vi o seu medo derreter naquela chuva. Você sabia, ali, que era o fim. Enquanto eu ainda não via dessa forma. Não era o fim para mim, mesmo que eu não pudesse mais ficar contigo naquele momento. Três passos a frente e eu já tinha desaparecido da sua vida. Sua expressão te denunciou. 

Você se tornou um ponto no meu campo de visão a cada passo mais distante de mim, até que dobrou a esquina e eu não pude mais vê-la. A aquela altura, a chuva cessara. O céu começava a abrir espaço para o sol quente. Ao voltar meus olhos para a esquina em que vi você desaparecer, eu percebi que as coisas são assim. O que fica, o que marca, são os detalhes. 

Tomei o ônibus. A única mala que eu tinha já estava guardada há um tempo. Senti falta de ter algo nas mãos naquele instante. Talvez eu pudesse me distrair e não repassar aquele momento durante toda a viagem, mas foi exatamente o que eu fiz. Eu perdi você, você me perdeu, tudo isso de forma involuntária e fora do nosso alcance de mudança. Eu detesto lembrar desse momento e saber que eu não poderia ter mudado aquilo mesmo que quisesse. 

A vida, enfim, é isso: um emaranhado de detalhes que vão se entrelaçando, se estendendo, se moldando e se modificando com a passagem do tempo. Lugares, pessoas, histórias. Tudo isso precisa de uma renovação para continuar existindo. Não há o que se falar em perdas. Você não perde, você mantém - mesmo que no mais profundo da sua memória -, independente do tempo ou do quão vivo você permaneça na mente de outrem; algumas coisas simplesmente são fadadas a acabar e, talvez, essa seja a parte boa das mudanças. Elas dão espaços para novas histórias, lugares e pessoas. Ninguém e nada é insubstituível, mas a gente vai sempre se lembrar de um detalhe ou dois que remete a algo do passado. 

3/30/2017

Sobre os amores impossíveis que a vida me trouxe.

Talvez tenhamos sido tudo que poderíamos naquele momento e isso sempre bastou na minha reserva de memórias para mantê-lo guardado em minha história; mas será que é possível que a gente tenha se esquecido como éramos? 

A vida sempre riu na minha cara depois de me derrubar e eu me acostumei facilmente com isso depois de perceber que não há o que se fazer além de se reerguer e continuar, nunca tive problemas em cair por vezes seguidas mas sempre tive problema em dar um passo a frente depois de me levantar de cada queda. O primeiro passo sempre é o mais difícil. 

Quando você chegou, a vida estava boa e as quedas não eram tão constante como antes e isso me animava, parecia que eu tinha encontrado um equilíbrio saudável; a verdade é que eu nunca gostei de equilíbrios. Eu sou muito intensa pra gostar de qualquer coisa balanceada. Ou no oito ou no oitenta, nunca entre eles. 

Você atropelou a forma como eu via a vida, desmontou todos os meus dizeres e pressupostos; me apontou a direção contrária àquela que eu costumava ir. Você pegou minha mão e não perguntou, me levou e eu segui. Eu não me importava para onde iríamos desde que estivéssemos juntos. Eu sabia que naquele momento você poderia me arrastar para o inferno que estaria tudo bem contanto que houvesse sua mão para eu segurar no processo. 

A intensidade e a velocidade com que as coisas acontecem me assustam, mas eu não tive temor algum quando eu percebi que a gente caminhava a cento e oitenta quilômetros por hora enquanto as outras pessoas, na mesma situação, não passavam dos dez quilômetros por hora. Eu percebi que, de algum modo, com você era diferente. E foi. 

Se eu puser no papel o tempo de duração, com certeza não preencheria nem metade da folha. O fato é que a gente viveu muito em pouco tempo. E talvez tenha sido exatamente isso que estragou tudo - ou fora exatamente isso que nos levou a ter paz. 

Eu olho para aqueles dias e não sinto mágoa, apesar de tudo. Eu lembro e sorrio. Eu lembro e até sinto um pouco de falta. Porque, de algum modo, toda aquela loucura me trouxe a pessoa que eu sou hoje e isso eu sei que não é qualquer um que poderia me trazer. No fim, eu estava certa: você era diferente de tudo que eu já tinha sentido. 

Talvez não tenha sido amor, talvez não tenha sido nem mesmo paixão, talvez estivéssemos presos demais ao medo de perder que sufocamos até a o ar acabar. E o ar acabou. E quando eu pude respirar novamente, longe de você, eu percebi que o processo de aceleramento pode ser bom em alguns casos, mas pode te sufocar se não conseguir frear as coisas. 

Você é aquele amor que não emergiu, mas que guardo sempre na caixinha de memória pra volta e meia te resgatar e te lembrar o quão importante foi o seu papel na minha jornada. Não vou esquecer isso, não vou esquecer você. Não me importo que se esqueça de mim. Eu aprendi que amar alguém é isso: libertar o outro de todas as formas possíveis. 

Nunca findamos, mas não precisamos. Somos capazes de viver com o peso dessa impossibilidade sem culpa. Foi muito bonito e a gente se gostava muito, mas acabou. 

1/26/2017

A casa.

Lembra quando planejamos comprar uma casa e enche-la de flores com direito a espécimes que poderíamos jurar que nós inventamos? Lembra que o plano era primeiro a sacada, depois o jardim e pouco importava como seria por dentro? Eu lembro. 

Pensei nesta casa em particular no momento em que saí da cama esta manhã. O sol que entrava pela fresta da janela fazia um rastro até onde, supostamente, deveria ter alguém ao meu lado quando eu acordasse, mas não havia ninguém. 

Ao abrir a janela, eu vi a cidade. Mórbida, cinza, sem um pingo de felicidade lá fora. Isso fez com que eu quisesse me deitar na cama até o sol se despedir do céu, mas eu não podia. Lembra que a gente dizia que dias tristes eram feitos para contemplar nosso verdadeiro eu e não ficar abalados? Eu lembro, mas ainda não consigo tamanha astúcia. Volta e meia, quando triste, eu volto pra cama e espero o sol se recolher. Eu queria que você estivesse aqui. 

O que me doeu não foi a cidade em si - a gente costumava dizer que toda cidade tem esse mesmo design, como se fosse arquitetada para que nossos olhos não se perdessem muito tempo em paisagens. -, o que doeu foi abrir a janela e não ter aquele jardim ou as flores. Eu não tenho uma sacada. 

Quando abro a minha janela, estou em frente a um jardim. É bonito, se você achar que ele é. Mas não é meu jardim. É o jardim do vizinho da frente. Vizinho que me acena toda manhã enquanto sua esposa com cabelos grisalhos está recolhendo algumas frutas. Olha, eles plantaram frutas. A gente só queria flores pra colorir a nossa existência, nem pensamos que talvez plantar frutas fosse algo mais inteligente da nossa parte. 

O sol se esconde quando, pela segunda vez, eu tento sair da cama. Ouço aquele barulho gostoso que sempre me fazia correr pra debaixo do edredom e procurar sua mão que, geralmente, estava gelada. Percebo que a chuva chegou mais cedo a cidade. E não tem mão alguma para que eu possa entrelaçar. Eu realmente queria que você estivesse aqui. 

O que me conforta são as cartas que prometemos fazer uma vez ao mês e guarda-las, como espécie de proteção aos nossos sentimentos. Eu releio centenas de cartas diariamente. Quando fecho os olhos e passo os dedos pelas letras que escreveste, sinto o peso e a pressão da caneta sob suas mãos. Forte. Selvagem. Urgente. E eu sabia que era assim que se sentia em relação a gente. 

Todas as cartas são de cores diferentes e eu sempre me pergunto onde você comprava, eu queria saber onde havia tantos envelopes coloridos na cidade quando eu só te deixava cartas em envelopes brancos. E eu começo a gargalhar pensando que, se eu perguntasse, você me acharia tola. Eu queria que você estivesse aqui pra gargalhar comigo e me chamar de tola. 

Nunca tivemos a casa dos nossos sonhos, mas hoje eu moro numa casa que talvez seja o sonho de alguém. Isso, de um certo modo, me conforta. Porque eu lembro daquela casa que sonhamos, eu lembro como se eu pudesse ter morado nela junto a você. Mas você se foi, tão rápido quanto o sol desta manhã. 

Ainda não consigo contemplar meu verdadeiro eu. Há tantas memórias vívidas dentro de mim que contemplação alguma me faria esquecer. Eu não quero aprender a contemplar meu verdadeiro eu, também. Algo em mim diz que é errado. Algo em mim diz que contemplar minha solidão e a sua ausência é o certo a fazer. E é isso que eu faço, todos os dias. 

Eu sempre leio as cartas. 

1/23/2017

Tempo - espaço.

Sempre penso que eu fiz dezenas de escolhas erradas e meia duzia de escolhas certas. Quando olho para mim perante ao espelho, percebo que cada caminho que trilhei ou desviei me moldou de tal forma que já não posso pensar no que eu fora. Eu não sou mais quem eu fui e jamais, num tempo futuro, voltarei a ser quem eu sou. 

Quando me distancio de mim para dar espaço a nostalgias, percebo que há coisas que nunca, de fato, me findaram. Eu acabei me tornando exatamente quem eu sempre quis ser, alguém que eu do passado jamais ousou ou pensou se tornar. Quando olho para trás, vejo a menina imatura e prematura, quase que jogada ao mundo para enfrentar os leões diários. Hoje, a gente anda em bando que é pra caçar melhor. 

Volta e meia, mesmo sabendo que estou melhor agora, penso em como as coisas poderiam ter sido caso eu tivesse feito apenas uma escolha diferente. Ainda seria aquela menina? Ainda estaria com aquele rapaz? Ainda seria tão inconsequente? Ainda estaria por aí tentando me descobrir? Nunca foi o "E se" que me atormentou, foi o "tanto faz". Porque, pra mim, tanto faz mesmo nunca ter tido uma segunda chance perante as pessoas e as coisas que já passaram por mim. 

A única certeza que me cabe agora é que as escolhas que faço, por mais banas e pequenas que pareçam, moldarão meu futuro de modo que eu traçarei planos, retas e trilhas diferentes das quais eu imaginei algum dia e isto, no fim, é sempre bom. Sou uma eterna aprendiz de mim mesma e, no fim do dia ou da vida, isso é tudo que conta: nunca ter certeza de quem você foi, nunca saber quem se é, mas ter sempre a expectativa de ser alguém melhor pra si mesmo amanhã.