6/04/2014

A crônica existencial e mortal de Ana Porto. (Parte I)

Tudo aconteceu muito rápido. Em um momento tudo estava normal, como em todos os dias até então e de uma hora para outra senti uma forte dor se alastrando por todo o meu corpo. Não era uma dor simples, dessas que se curam com aspirina. A dor era intensa e a cada segundo que passava, ela aumentava gradualmente. Essa dor atingiu um nível que nenhuma outra dor que eu houvesse sentido até hoje pôde atingir. E essa dor era diferente por que, com o tempo, as dores “comuns” iriam regressar em algum momento. E essa, teimosa que era, insistia em aumentar. E atingiu um nível tão alto que meu corpo não aguento e eu perdi os sentidos. Acontecia devagar e rápido ao mesmo tempo. Os meus olhos se fechavam sem que eu quisesse e eu já não tinha mais controle sobre o meu corpo.

Acordei com uma luz forte bem em cima da minha cabeça. Meus olhos iam se adaptando aos poucos ao ambiente e àquela claridade evasiva enquanto a mente processava aonde eu estava. Quando pude, enfim, ter um pouco mais de foco, me deparei com alguns familiares em uma pequena saleta. Eu sabia que estava em um hospital mas eu ainda não entendia o motivo. Tudo bem, eu senti uma dor. Uma dor forte e incomum mas seria mesmo necessário ir ao hospital? Não perguntei, afinal o rosto daqueles que eu conhecia denunciavam tudo: aquele era o lugar onde eu deveria estar. E eu não sabia o por que. Ou não queria saber.

Minha mãe foi a primeira pessoa que eu vi ao abrir os olhos. Ela não tinha visto que eu acordara e estava com as mãos entrelaçadas uma na outra e seus olhos baixos enquanto seus lábios murmuravam algo que eu não conseguia ouvir. Ela estava rezando. E aquilo me deu um pouco de medo. Lembro-me que minha mãe sempre rezava antes de dormir para agradecer o dia mas aquilo era diferente, como se estivesse pedindo ajuda a Deus – se é que eu acredito mesmo que ele exista – em alguma coisa. Quando seus olhos, marejados e avermelhados, encontraram os meus, ela sorriu. Mas era um sorriso triste e forçado, como quem diz que as coisas vão bem quando sabemos que não está.

Aos poucos eu ficara rodeada de rostos conhecidos e amáveis por mim, sorri uma vez ou duas antes de conseguir falar alguma coisa. Apesar de agradecer por todos aqueles que eu amo estarem ali, eles estavam me sufocando e me deixando sem graça. Eu nunca fui do tipo que gostava de atenção e atenção era tudo que eu tinha ali. Alguém perguntou alguma coisa, percebi pela intonação mas eu não consegui absorver as palavras ou formular a frase. Meus olhos estavam se fechando de novo e a última coisa que lembro foi minha mãe gritar por ajuda.

Não sei quanto tempo havia apagado mas percebi que estava ficando mais comum do que eu poderia pensar. Nunca antes havia sofrido um desmaio e sempre quis saber a sensação do mesmo, me desiludindo quando sofri o primeiro e o segundo, rezando para que aquilo parasse imediatamente. Desmaiar não era tão legal quanto eu imaginava que fosse.

Acordei e as luzes estavam mais fracas, conseguia ouvir apenas dois sons naquele ambiente: o relógio de pulso da minha mãe e uma máquina ao meu lado que parecia irradiar sons estranhos e cronometrados. Era o som que um cardiograma faz. Achei legal, sempre quis ver um cardiograma de perto mas logo caí na real e pensei que algo estava muito errado para eu estar aqui precisando ser monitorada.

Me mexi um pouco pra ver se alguém prestava atenção. Dois pares de olhos pairaram sobre mim: minha mãe e minha avó. Abruptamente ambas pararam ao lado da minha maca e cada uma pegou uma das minhas mãos. Vovó, ao lado direito, sussurrava uma oração – uma coisa típica dela e que eu já não achava mais estranho – e ao lado esquerdo, mamãe. Sorri fraco, meu corpo ainda não permitia algo forte, nem mesmo uma expressão simples como um sorriso.

- O que aconteceu? – Perguntei, tentando me ajeitar na maca.
- Você sofreu um desmaio. Ou dois. Como você está se sentindo? – Mamãe perguntou-me
- Eu não sei, me sinto um pouco cansada e fraca. Como quem dormiu o dia inteiro, acordou a noite e dormiu um pouco mais. Só cansaço, sabe? – Dei de ombros.

Ela sorriu e afagou minha mão.

- Mãe, o que realmente aconteceu?
- Ainda é cedo pra saber, filha. O médico ainda não nos deu um diagnóstico exato. Estamos esperando por uma resposta.
- Mas ele disse algo, não disse?
- Não, ainda não. – Ela suspirou. – Ainda não sabemos. – Sorriu falso.


Minha mãe nunca soube mas sempre sei quando ela mente pra mim. Não é como todas as outras pessoas com quem eu convivo. Minha mãe é uma boa mentirosa. Uma excelente, eu diria, mas depois de tantos anos pegando algumas mentiras no ar e fazendo-a contradizer-se, as mentiras dela ficaram muito mais fáceis de serem lidas por mim. Ela como olhar o céu numa noite nublada e ter certeza que há inúmeras estrelas por trás de todas aquelas nuvens.

Alguém bateu a porta e entrou, não precisou de convite e imaginei que fosse alguém conhecido. E quanto mais ele se aproximava, mais seu rosto me era desconhecido. Seu jaleco denunciava seu nome, bordado num azul claro, com um “Dr.” a frente . O bendito que estava esperando para poder ir pra casa.

- Olá, Ana, como vai? – Ele lia sua prancheta enquanto falava comigo.
- Eu estou bem, só um pouco cansada. – Dei de ombros e lhe lancei um sorriso.

Ele continuava a ler sua prancheta e sua expressão ficava pior a cada linha. Tentei me suspender um pouco e ler o que estava escrito ali mas era algo impossível estando deitada. Ele, por fim, deu uma batidinha na prancheta e a deixou ao lado da cama, virada de cabeça para baixo. Era normal aquilo ou ele apenas deixou por deixar, sem pretensão alguma?

- Bom, querida... – Ele dizia enquanto sentava na beirada da minha maca a tomava minha mão para um afago desconsertante. – A verdade é que eu não tenho notícias muito boas.
- Certo, pode falar. – Eu disse.
- Você tem Leucemia Mieloide Crônica. – Ele fez uma pequena pausa pra poder observar minha reação que, até então, não mudara. – E essa Leucemia está em crise blástica. A crise blástica é o último estágio desse tipo de Leucemia, com uma progressão rápida e com um curto tempo de vida.

Minha mãe explodiu do outro lado da sala. O seu choro era alto e os soluços interrompiam meus pensamentos. A minha avó tentava abraça-la numa forma de conforto e conforta-la, também. Aquela era a pior cena que eu já havia visto e apenas aquilo me trouxe um ardor na garganta, o choro pronto pra sair. Respirei e virei para o médico a minha frente. Ele ainda afagava minha mão. Pensei se ele fazia aquele tipo de coisa com as pessoas que estavam ali ou era apenas com aquelas que estavam perto de morrer, como eu.

- Não existe mais um tratamento? – Eu quis saber. – Digo, só vou ficar aqui e morrer?
- Eu não quero lhe dar falsas esperanças, tudo bem? – Ele começou. – Você pode fazer quimioterapia mas apenas isso não adiantaria, depois de algum tempo fazendo quimioterapia e observando se haveria melhoria, você poderia fazer um transplante de medula óssea.
- Se eu sobreviver a quimioterapia poderei fazer o transplante e tudo voltará ao normal? – Quis saber.
- Talvez, mas como eu disse: não quero te dar falsas esperanças. As chances que a quimioterapia funcione não são tão boas quanto eu gostaria que fosse. Seu avanço é quase que nunca visto pela Medicina, geralmente pacientes que tem Leucemia Mieloide Crônica chegam aqui na fase crônica, o primeiro estágio, e é mais fácil de ser tratado do que o estágio em que você se encontra.

Minha mente girava com todas as informações me passada. Tudo era novo. E tudo me doía. O sofrimento da minha mãe e da minha avó naquele micro-quatro, o Doutor Rogério que não sabia o que fazer com suas mãos, aquele cardiograma que não fazia sentido estar ali ou eu precisar dele no estado em que eu me encontrava. Quis perguntar mas o choro da minha mãe era alto e Doutor Rogério deu um leve tapinha na minha mão, mencionando sua saída.


Minha mãe atravessou o quarto em passos largos e apressados e me tomou em um abraço forte e desesperado, pela primeira vez, até então, eu pude sentir as lágrimas rolarem sobre meu rosto. Minha avó estava próxima e eu estendi o braço para que ela também pudesse me abraçar. Ficamos ali, toda a geração de mulheres por mim conhecidas naquela família, abraçadas uma com as outras enquanto soluços tomavam conta do ambiente. 

3/15/2014

O cotidiano.

Você liga a TV e vai para a cozinha, gosta do barulho da TV ao fundo pois lhe faz sentir um pouco mais segura, como se houvesse outro ser ali além de você embora saiba que essa solidão não passa com ruídos e grunhidos que a TV causa. Você está na cozinha e se apoia numa perna, depois na outra e fica nessa até lembrar o que foi fazer ali. Café de ontem, põe no microondas e reaquece para parecer novinho em folha mas você sente aquele gosto de ontem e sabe que as coisas, por mais que você tente e se esforce, não podem ter o sabor de antes. Você se perde em pensamentos soltos enquanto senta e assiste a TV, provavelmente outro avião caiu ou mais alguém famoso faleceu mas você não se importa porque essas notícias estão ali todos os dias, como se o noticiário ficasse repetindo as catástrofes todos os dias com a diferença de lugar e pessoas envolvidas. Você não entende mais a vida e quer fugir dessa rotina cansada que leva há anos mas não sabe nem por onde escapar, não vê saída ou rota de fuga dessa mediocridade do dia-a-dia e sabe que, apesar de querer desesperadamente sumir por um mês ou dois, você precisa ficar e resolver as coisas que precisam ser resolvidas diariamente. Você pensa no seu cachorro e imagina o que aconteceria com ele caso você resolvesse dar a tal sumida, então volta a órbita e tira essa ideia maluca da cabeça pois sabe que ali tem uma alma que precisa de você para sobreviver. Então você esquece a TV e o café, caminha sem pressa alguma até o banheiro e se olha por alguns minutos diante do espelho e quase sorri pra aquela pessoa ali refletida: é você mas você não é mais você há tanto tempo. Isso quase te faz entrar em pânico, você sente falta de quem você costuma ser mas já não consegue mais ser aquela pessoa de antes. Tantas coisas te aconteceram para que transformasse nessa pessoa meio amargurada, meio desconfiada, meio tanto faz. Você perdeu aquela alegria de sempre, aquele sorriso doce que tinha assim que acordava e o mundo não pode mais te culpar por isso, você têm aprendido da maneira mais difícil possível a ser um ser humano como outro qualquer. Você terá seus sonhos destruídos, sua alma amassada por porções de palavras e atitudes mas você não deve temer tanto assim, afinal, isso lhe trouxe um aprendizado que nenhum dos livros da sua estante poderia te trazer. Você cansa de sentir dó de si mesma, respira fundo e tenta enfrentar o dia. Sai apressada depois de um banho pois já sabe que está atrasada, suas sessões consigo mesma estão demorando mais ultimamente pois há questionamentos demais dos quais você queria obter respostas e não consegue nada. O tráfego é de se queixar mas você não lamenta, você gosta de andar de ônibus pela cidade enquanto observa os lugares, pessoas e o que mais puder observar. A cidade pela manhã parece quase plena, saudável, mais viva até. Te dá uma saudade de quando você tinha alguém para acompanha-la nessas viagens de ônibus ao trabalho. Você se lembra dele mas não dura muito, afinal, você se prometeu esquecê-lo mas não tem sido bem sucedida na tal promessa. Pouco depois você chega naquele lugar lotado de pessoas e sempre anda um pouco mais rápido com medo de ser trombada por alguém pois se considera frágil e pequena demais para não cair ou se machucar. Ofegante, você chega e senta. Põe os fones e não olha pros lados. Sabe que alguns pares curiosos de olhares estão voltados pra você. Você finge não ligar e fica trocando de música numa tentativa desesperada de se ocupar com algo que não seja aqueles olhares curiosos. O dia segue e você percebe que será mais um dia comum, como todos os outros, apesar daquela pequena esperança no seu coração de que algo realmente interessante acabará por acontecer e mudará todo o seu humor e o curso do seu dia. Você sente falta da mulher que era antes pois aquela lá sabia se divertir, a de hoje segue uma rotina fatigada e está sempre tão ocupada com tudo que mal tem tempo para amigos e barzinhos. E você e todos os seus amigos já não gostam tanto da mulher que você se tornou, apesar de ser uma mulher de sucesso. Você não se importa mais, vê seu ciclo de amizades diminuindo a cada dia e não se tranca no quarto e chora a noite de inteira. Você aprendeu a perder as pessoas e, apesar de difícil, isso foi um dos melhores aprendizados que já teve. Quando alguém parte, ainda dói. Acho que essas partidas sempre vão doer, mais cedo ou mais tarde, mas já não é tão grande coisa assim pra você. Você só respira fundo e segue em frente, sabe que se não ficam é por que não deveriam nem entrar. Pensa tão diferente de um ou dois anos atrás que isso assusta demais os conhecidos que você não vê há anos e se encontram por caso. Dizem que você mudou muito e te dão um sorriso falso, você sente mas devolve o sorriso da melhor forma possível. Você ensaiou tantos sorrisos falsos que agora eles são seus sorrisos naturais e ninguém percebe. Você chega em casa exausta, cansada do dia chato e das pessoas curiosas, você só quer um café quente e um filme de comédia meia boca pra aliviar a tensão do apartamento. Você está sozinha, como sempre. Você ri desesperadamente duma comédia boba só por não ter rido há tanto tempo. Ri alto, com gosto, mas quando acaba aquele riso que ecoa pela sala de estar você se põe a chorar. E chora muito. E parece que vai desidratar. Você só senta e chora. E você não quer fazer mais nada além de ficar sentada e chorando. Chora quase sempre porque alivia alguma dor que você não sabe onde começa ou onde termina, chora por que sente uma dor tão urgente e sabe que não tem cura. Você limpa as lágrimas mescladas com o rímel e caminha descansada até sua cama. De lá você vê o céu. Hoje está limpo, estrelado e dá pra ver a lua enquanto você está deitada. Você sorri e se acha boba. Você, por fim, fecha os olhos e pensa: amanhã vai ser um dia maravilhoso. E dorme. E acorda e liga a TV e vai para a cozinha. Sabe que o dia vai ser uma merda, como todos os outros. 

2/27/2014

Mais açúcar, por favor!

- O café está frio. – Eu disse, distraída com a sessão de esportes que lia do jornal do dia anterior.
- Claro, nada nunca está bom para você. – Ele disse em tom ríspido e voraz.
- Eu posso requenta-lo no microondas, não tem problema. – Eu disse, dando de ombro
- Não é sobre o café, Elisa. Você nunca está contente com nada que eu faço.

Eu pigarreei e inspirei fundo, já havíamos tido essa conversa há algumas semanas e terminou com um saindo apressado pro trabalho e o outro correndo pro bar. Eu não queria ter aquela lavagem emocional mais uma vez em menos de um mês. Mas eu entendia a gravidade da situação e entendia, também, que eu era uma pessoa difícil de lidar e que, realmente, poucas coisas que ele fazia estavam ao meu agrado e eu sempre esquecia de agradecê-lo ou algo do tipo.

- Desculpa! – Eu disse, tentando fingir remorso pelo comentário insensível.
- Desculpa uma porra, Elisa. Não pede desculpa e finja que se arrependeu. Você nunca se arrepende. Daqui há uma hora ou menos você vai fazer isso de novo e de novo e nem vai se importar. Você não se importa mais, Lis. E eu nem sei se algum dia você realmente se importou.

Parei de tomar o café frio por um momento e o olhei incrédula. Tudo bem, eu não era a mais sensível dos ser humanos mas ao ponto de não me importar com nada? Deus sabe que ele era importante pra mim, eu só tinha esse problema de não demonstrar as coisas do jeito certo. Eu sempre fazia as coisas do jeito mais torto que eu conseguia fazer e aquilo me bastava mas não o bastava, nunca o bastou.

- O que você quer que eu diga? É uma droga de café frio! Custava você pôr vinte segundos no microondas e esquentar? Vinte segundos, Oliver. Isso não te mataria! – Eu berrei, enquanto trombava meu ombro por ele e passava para a sala de estar.
- Não é sobre o café! Nunca foi só sobre o café. Estou te falando, Elisa, você é um ser humano insensível demais. Você não se importa se alguém der tudo o que ele tem, você sente que ele precisa te dar a alma também. E quando consegue, você não faz o mínimo esforço para agradecer. Nem um sorriso sequer.
- Adivinha? Essa sou eu! Eu sempre fui assim. Eu nasci assim. O problema é que você estava apaixonado demais para se importar com meus enormes defeitos, eles pareciam bonitinhos aos seus olhos apaixonados. E agora você me vê como um saco de defeitos ambulante e está arrependido do dia em que se apaixonou por mim.
- Não é isso, Lis. Eu a amo. Amo-a com todo o meu coração, de toda a minha alma. Só você sabe o quanto eu a amo e você não pode negar isso. – Oliver tinha uma expressão triste ao dizer cada palavra naquela frase.
- Eu não disse que você não me amava, eu disse que você está arrependido do dia que se apaixonou por mim. – Eu pausei e suspirei profundamente – E eu também estou arrependida do dia em que me apaixonei por você. – Eu disse em uma voz desconsertante.

Oliver me olhou de baixo pra cima enquanto levantava a cabeça para me olhar no fundo dos olhos. Eu senti o que ele sentiu naquele momento e isso ardeu meu coração. Ele ficou me encarando por mais alguns segundos antes de sumir do meu campo de visão.

Eu não queria ir atrás dele, não por orgulho ou coisa do tipo mas por que eu sabia que eu havia o machucado o suficiente e que agora não era uma boa hora, ele reuniria todas as palavras mais tortuosas e jogaria em frases ríspidas que me cortariam a alma. Eu não estava pronta para ouvir nada que pudesse partir mais ainda o meu coração.

Quando, enfim, ele saiu do quarto junto com uma mochila nas costas, ele me olhou desconsolado e ficou apenas parado enquanto eu tentava entender o motivo daquela mochila tão grande. Ele não podia estar partindo, não assim e não por isso. Ele não podia fazer aquilo comigo. Mas fez. E saiu pela porta da frente sem me dizer nada.

Sentei no chão frio de costas para a parede e me encolhi. Chorei por algumas horas, senti uma pena imensa de mim mesma e pensei o quão tola eu fui por dizer aquelas palavras impensadas para ele. Eu me odiava por inteiro por ter partido o coração dele daquela forma. De uma forma tão aflita que o fez partir sem nem um adeus se quer.

Alguém bateu na porta da frente e eu precisei recompor o pouco da dignidade que havia me restado. Levantei do chão, sequei as lágrimas e tentei não parecer uma maluca desvairada que acabara de ser deixada pelo noivo. Abri a porta e lá estava ele. Com o seu melhor sorriso e com aqueles olhos verdes e brilhantes. Em suas mãos trazia dois cafés quentes.


- Achei que um café quente seria bom agora. – Ele sorriu e passou por mim na porta, me deixando ali, parada, sorrindo feito uma boba e pensando em como eu era uma mulher de sorte por tê-lo ao meu lado.

2/17/2014

Forever you're still gold to me.

Eu era um corpo estranho a mais no mundo, vagando por aí com uma bagagem repleta de sonhos destruídos e memórias fragmentadas, eu estava apenas ocupando mais um lugar no espaço que poderia ser dado a qualquer outro que merecesse mais que eu. E, aquela altura, eu achava que qualquer um merecesse mais a vida do que eu. Era difícil enfrentar os dias quando tudo que você queria era continuar na cama até o verão acabar mas sempre havia algo pelo qual eu levantava naqueles dias e nenhum dos motivos eram sólidos o suficiente para que eu enfrentasse mais um dia obscuro e mesmo assim lá estava eu, tentando não falhar na única tentativa que me restou: sobreviver.

Esse era o modo como eu me via, como eu sentia, como eu olhava para a vida e sentia que ela não me olhava de volta. Eram por esses e outros motivos que eu rezava para que o dia, o mês e o ano passassem mais rápido, o suficiente para que aquilo pudesse, um dia, ser enterrado no fundo da memória e eu decidisse quando eu queria trazer aquilo à tona.

Eu andava vazia, triste e solitária. Haviam, sim, alguns dias que se destacavam mais que os outros, eram dias agradáveis mas que eu, provavelmente, não lembrarei quando eu pensar nisso daqui há alguns anos. Então, ele entrou pela porta de saída dos fundos, a única porta que eu mantinha aberta para que eu um dia, caso algo piorasse, pudesse escapar. E ele invadiu tudo aquilo do qual eu tinha medo dentro de mim, ele adentrou todos os pequenos espaços entreabertos que ficaram em mim e me fez limpar a bagunça dos meus sentimentos. Ele não se importou com a bagunça, ele só sentou e esperou o meu momento acontecer para que eu me limpasse tudo e desse espaço para coisas novas acontecerem e para que ele pudesse acontecer em mim. 

Estar com ele era algo extremamente bom e feliz. Eu queria poder estar com ele o tempo inteiro mas sei que eu não podia tê-lo a todo instante, por isso que eu tentava aproveitar ao máximo os momentos que eu tinha com ele. E eu sempre aproveitava, eu sentia isso, mas nunca me era o suficiente por que quando eu chegava em casa e caia na cama com aquele sorriso bobo, eu já estava sentindo a falta dele. E essa era a parte ruim de todo o sentimento bom que eu tinha: me doía sentir tanto a falta de alguém como eu sentia a dele.

O fato dele ter adentrado o meu interior não foi o que me surpreendeu, o fato dele olhar aquilo tudo, aceitar minha bagagem emocional e corrompida por tantos problemas e, ainda sim, ficar foi o que realmente me deixou perplexa. Eu não fazia ideia que, algum dia, alguém pudesse lidar com a minha bagunça quando nem eu mesma sei lidar na maior parte do tempo. Mas ele me mostrava o que eu tinha de mudar, por onde eu deveria ir, o que eu deveria captar de tudo que me acontecia. Era bom tê-lo ao lado pois com ele os dias cinzas sempre eram bons dias. Não importava como estava o céu lá fora, eu e ele juntos fazíamos o clima ser extremamente agradável e esclarecedor.

Eu nunca pensei que me sentiria dessa forma outra vez (E estou fadada a pensar se houve, realmente, alguma vez em que estivesse assim). Sempre ouvi dizer que quando você se apaixona é algo inesperado, ninguém é preparado para a chegada de alguém em sua vida que pretende ficar por muito tempo, e isso ainda me deixa um pouco receosa e aflita, ainda possuo um medo lá dentro que grita tão alto que acorda e incomoda todos os sentimentos bons que sinto neste momento mas tento, ao máximo, não escutar o medo. Eu não preciso sentir medo do que estar acontecendo porque, dessa vez, eu sei que não sairei com um coração quebrado. Ele não vai partir o meu coração, ele estaria partindo o seu se fizesse isso. E a gente sabe o quanto dói um coração partido.

Eu só queria que o relógio que tiquetaqueteia insensivelmente parasse nos momentos em que estivéssemos juntos porque eu não gostaria de voltar pra casa com a sensação de que estou deixando algo importante para trás, eu não gostaria de voltar para casa com a sensação de que você ficou para trás porque eu queria poder te levar comigo para aonde eu fosse. Eu queria não precisar voltar para casa porque estar com você era o que eu queria fazer e era no teu abraço que eu queria morar, era em seu peito que eu queria deitar e repousar minha cabeça cheia de problemas.

Você trouxe o melhor de mim à tona. Eu não sei como lidar com essa parte de mim, parte que eu não sabia que existia e que eu achei que nunca veria. Eu sorrio à toa, eu sinto borboletas no estômago e todas as canções de amor fazem sentido agora. Você é a parte boa em mim e eu não quero perder isso por nada do mundo.


Agora, quando olho para trás, eu vejo uma estrada bipartida, com alguns corações quebrados e algumas decepções pelo caminho. Eu ainda vejo muita coisa da qual eu queria esquecer mas eu já não olho mais com tanta tristeza e desconforto pois sei que foi um desses caminhos que trouxe você pra mim e se eu precisei passar por todas essas coisas para te ter, eu ficarei bem com as memórias e passaria por todas as coisas tortuosas novamente para que, no fim, pudéssemos ficar juntos de novo. Agora eu vejo que eu vivi a vida achando que sabia o que era estar apaixonada mas agora é o momento que eu tenho certeza. E eu sei que estou completamente apaixonada por você.

1/21/2014

Algumas notas sobre você, mas um texto sobre mim.

O verão me deixou mais bronzeada, confesso. Mesmo que essa não fosse a intenção. Por que antes de estar aqui, nesse lugar, nessa bendita estação e escrevendo isso através de um lap top em frente ao mar, eu estava trancafiada em você.

A semana em que tudo aconteceu pareceu a semana mais calma de lá pra cá. Por que tínhamos terminado tantas outras vezes e, pra mim, aquela seria mais um termino bobo do qual voltaríamos correndo um para o outro dias depois. Mas os dias se passaram.

Tudo bem, também. Umas semanas. Às vezes, casais precisam de férias um do outro – pra respirar, pra viver sem, pra esquecer, pra melhorar, pra fortificar – e essa ideia estúpida foi o que me fez seguir algumas semanas ainda esperançosa e cheia de expectativa para o nosso reencontro, como de praxe.

E as semanas transformaram-se em meses. E o primeiro mês foi terrível. De um poço quase sem fim. Cavei um buraco em mim que achei que não tivesse fim. E apaziguava minha dor com bebidas e festas que eu odiava, com pessoas que eu não conhecia e outras que eu detestava. Mas eu estava lá. Por que você tinha me deixado e isso era o fim do poço pra mim, beber tinha sido minha ultima alternativa para esquecer você.

E o primeiro mês foi tranquilo, até que calmo, em relação dos meses que seguiram. E a bebida era companheira de todas as horas, quando não estava apenas eu e uma garrafa de vodca estava eu e alguém que eu tinha conhecido por aí e a garrafa de vodca. E ninguém, ninguém mesmo, nesse meio tempo conseguia me fazer esquecer você. E eu rezava para te esquecer, todas as noites.

Muito tempo depois eu vim descobrir o que era o que a vida tinha feito para mim: pregado-me uma peça sádica e doentia, mas uma peça que eu precisava interpretar um bom papel. E entendi que não era sobre mim ou sobre o mundo, era sobre você. Era sobre você não ser o cara certo pra mim. E por mais que eu ainda te ame e por mais que ainda me doa muito falar sobre você ou ouvir alguém falar sobre você, estou bem. Estou ficando bem. Estou melhorando todos os dias.

Não enlouqueci. Não me rasguei por dentro. Não morri. Por vezes, achei mesmo que não fosse aguentar. Me afundei e me levantei da lama diversas vezes nesse meio tempo. E você não estava aqui para minhas derrotas e minhas vitórias. Foi como eu aprendi a ser sozinha. Sem você por perto, a única pessoa que me dava paz e esperança, aprendi que nenhum outro ser humano pode ser realmente bom o suficiente para merecer minha companhia e compaixão a todo e cada segundo. Você era tudo pra mim e o meu tudo me deixou sem nada.

Hoje lembro de você e não choro. Rezo baixinho, vez em quando, só pra que anjos lhe protejam e te deem paz e felicidade. Por pior que tenha sido e por pior que eu tenha ficado, daria tudo que posso para vê-lo feliz. Mas, por favor, seja feliz bem longe de mim. Por que eu estou sendo muito feliz enquanto estou sozinha e me amando.