12/03/2010

Sem sorte no jogo,feliz no amor.

Vou acabar com isso agora! - Pensou Lara enquanto ia em direção a Ramon e seus amigos.
- Por que não me ligou noite passada? - Lara perguntou com uma voz meia rouca mas ainda sim bastante firme.
Ramon se virou de onde estava conversando com alguns amigos e logo quando ouviu a voz de Lara,cruzou os braços.
- Não somos namorados. Não tenho obrigação de te ligar todas as noites. - Ele sorriu de lado e deu as costas voltando a conversar com seus amigos.
- Ramon,não me deixa falando soziha! Podemos conversar longe dos seus amigos? - A voz de Lara mudara para fraca e muito rouca.
E então ele,contra sua vontade,virou-se em direção a Lara e foi andando para de baixo de uma árvore que ficava há um raio de quinze metros aonde seus amigos estavam. Chegando lá,parou e reencostou-se na árvore de braços cruzados.
- E então,o que você quer falar? - Ele perguntou tirando uma carteira do bolso.
Lara não falou,deu um suspiro tão alto que aquele silêncio já era um mar de palavras. Pobre Lara,nunca saberá que nenhum menino entende esse mar de silêncio de uma garota,exceto quando ela diz.
- E então? Vamos ficar aqui a tarde inteira?
- Estou grávida!
Ramon olhou Lara nos olhos e viu quase um brilho dentro deles mas antes que pudesse desvendar o que era,ele acendeu seu cigarro e deu duas tragadas. Observou seus amigos de longe,alguns olhando pra eles dois e outros conversando sobre outros assuntos.
- Parabéns! Quem é o pai?
- Como assim quem é o pai? - Lara arregalou os olhos. - Claro que é você. Você foi meu primeiro e único homem.
- Impossível ser meu,Lara,usamos camisinha e eu teria sentido se algo tivesse dado errado. - Outras duas tragadas.
- Não sei o que aconteceu,só sei que um filho não pode apenas cair do céu e entrar dentro da minha barriga por forças sobrenaturais,estou grávida e só tenho 17 anos. O que nós vamos fazer?
- Você fala como se você fosse a única garota de 17 anos no mundo que estivesse grávida. Baby,as coisas acontecem. Eu tenho 18 e nem por isso estou nessa maré de desculpas esfarrapadas. E enquando a "nós" esqueça,não temos e nunca tivemos nada e agora que você tá grávida acho melhor a gente parar de sair também.
- Como assim,Ramon? Estou esperando um filho seu e você me diz que não existe e que nunca existiu nós? Do que você tá falando? É uma criança,a nossa criança,vamos ser pais e você precisa me ajudar a cria-la! - Nesse momento Lara entrou em pânico,suas mãos e pernas bambeavam a todo custo,suas bochechas e o seu colo estavam muito vermelho,as lágrimas já estavam prontas pra cair.
- Larinha,meu amor,entenda: Estavamos nos divertindo. Eu não vou ajudar você com essa criança,não quero ser pai,se você quiser eu te ajudo a conseguir um aborto mas é tudo que eu posso fazer por você.
Lara encarou Ramon,seus olhos que agora jorravam lágrimas de ódio estavam tão vermelhos quanto todo o resto do seu corpo,a mistura de emoção nesse momento foi muito grande e ela não se controlou ao dar um tapa na cara dele.
O silêncio que se seguiu após o tapa aquietou todo o campo,os amigos de Ramon estavam calados,as árvores tinham parado de balançar,tudo que se ouvia era a respiração ofegante de Lara e a pulsação das veias do pescoço de Ramon quase latejando.
- Não vou abortar uma criança. Se você não quer esse filho o problema é todo seu,eu não quis mas vou arcar com as consequências e terei essa criança e serei pai e mãe. Ramon,nunca mais ouse me procurar.
Sem deixar Ramon argumentar ou reclamar sobre o tapa,Lara saiu correndo pelo campo e sumiu entre as árvores. O caminho até em casa foi repleto de perguntas,de choros,soluções,de xingamentos contra ele e contra si própria. Lara se odiava tanto naquele momento que poderia se matar mas agora ela tinha um outro alguém pra pensar além dela e era só por isso que ela estava ali naquele momento.
Ao chegar em casa com o rosto vermelho,aquela carinha de choro e querendo chutar o primeiro animal que aparecesse,a mãe e o pai de Lara a seguiram até seu quarto e tentaram calmamente manter um diálogo com ela. Lara estava nervosa,não sabia como falar para os pais sobre aquilo,afinal de contas eles eram religiosos e a condenariam para o resto da vida mas se não falasse agora os meses iam passar e sua barriga seria um problema.
Sentados na cama de Lara,os pais dela estavam preocupados e a ouvidos ao que ela tinha para contar.
- Estou grávida! - Lara falou pasando a mão pela sua barriga e caindo em lágrimas mais uma vez.
Não houve nada,nem gritaria,nem choro,nem alegria,nem tristeza... absolutamente nada. O pai de Lara levantou-se e aproximou-se de Lara e propós a lhe dar um abraço e saiu do quarto logo em seguida. Sua mãe não foi diferente,levantou-se e afagou sua mão e deu um sorriso falso e disse:"parabéns,criança."
Os dois primeiros meses logo após a conversa com os pais foram atormentados pela vaga conversa que tinham. Quase não se falavam,quase não se olhavam e pra eles pouco importava quem era o pai pois sabiam que não ia ajudar em nada saber quem foi o filho da puta desgraçado que engravidou a filha deles.
Lara continuava indo para o colégio,tinha enjôous às vezes e diversos desejos por alimentos quase sempre estranhos. Sua melhor amiga Olivia e seu melhor amigo Paul sabiam desde o início sobre sua gravidez e desde sempre a apoiaram com o bebê,sabiam que não seria fácil mas prometeram ajuda-la no que fosse necessário. Sem eles,Lara não seria nada feliz e não estaria nada legal.
Algumas vezes encontrava-se com Ramon pelos corredores da escola mas ele sempre estava ocupado conversando com outra garota ou jogando bola com os amigos,desde a conversa e o tapa na cara eles não se falaram mais e ele não mais olhara para Lara.
Três meses se passaram e Lara já estava com sua barriga um tanto a amostra,como era bastante magrinha aos seis meses de gravidez sua barriga ainda era um tanto pequena mas ainda sim já ouvia-se os comentários de que naquele barriga não havia gorduras e sim uma criança. Agora as pessoas da escola a tratavam diferentes,algumas ajudavam ela com as lições,com qualquer coisa que pudesse machuca-la ou afetar o bebê e outras pessoas olhavam e comentavam sobre uma garota tão nova com pais evangélicos ter um bebê e a recriminavam por isso. Ramon ouvira muito sobre seu filho mas nunca quis saber sobre o tal,Lara ainda era insignificante pra ele e há pouco mais de três semanas iniciara um romance com uma novata loira e toda-gostosa-pronta-pra-dar mas era obvio que aquele romancezinho não passaria daquela semana,quando ele conseguisse levar ela para o banco de trás do seu carro.
Era um menino bem forte e bem saudável que Lara carregava com ela. Ia se chamar Paul Oliver em homenagem aos seus dois melhores amigos que sempre estivera com ela. Em sua casa,agora,as coisas iam bem,sua mãe já estava acostumada a ter um neto e o seu pai até já gostava da idéia de ter uma outra criança correndo pela casa daqui há alguns anos.
Naquele dia,logo depois da escola,Igor foi até a casa de Lara. Igor era um dos melhor amigos de Ramon e soubera desde cedo que Lara era uma garota especial que apenas não foi dada o valor merecido.
- Oi! - Disse Lara surpresa ao abrir a porta com uma das mãos na porta e outra em sua barriga.
- Ah,oi! - Disse Igor,sorrindo pra ela. - Posso conversar com você?
Lara assentiu e deixou que Igor entrasse. Seus pais naquela tarde estavam na igreja e a casa,vazia.
- Então,o que sobre quer conversar? - Disse Lara sentando-se no sofá e apontando para a poltrona para que ele sentasse também.
- Ah,obrigado! - Ele sentou. - Sobre você,seu filho e Ramon.
- Ele que te mandou aqui? Por que se foi...
- Não,não! Eu vim por conta própria.
- Então,continue.
- Lara,desde aquele dia no campinho quando você contou para Ramon que estava grávida eu percebi que você era uma garota diferente,especial,não sei dizer como mas sinto que você têm algo do qual eu preciso. Então,desde aquele dia eu venho percebendo que eu sou apaixonado por você. Eu sei que é complicado tudo que você já passou e ainda passa e vai passar com essa criança mas eu estou disposto a ficar ao seu lado,ser um pai pra essa criança e cria-la como se fosse meu. Eu só queria que você soubesse que eu amo você.
(Silêncio. Olho nos olhos. Ele se levanta e vai até ao sofá onde Lara está sentanda. Ele senta ao seu lado. Olhos nos olhos,outra vez. Um beijo. Um sim como resposto. Um começo de uma nova vida.)
A tarde e a noite que se embalaram aquele beijo foi melhor do que todos os meses no qual Lara se envolveu com Ramon. Tinha carinho,tinha afeto,tinha um poço de amor sem fim e tinha o brilho no olhar de volta nos olhos daquela garota e agora,tinha também,um sorriso calmo e sincero e agora o dono daquele sorriso tinha mudado de nome e se chamava Igor.

Na manhã seguinte,Lara e Igor se encontraram em frente a escola e entraram de mãos dadas,sorrindo um para o outro e todos que ali estavam pararam para ver o que tinha acontecido e alguns se perguntaram como seria possível isso ter acontecido,outros já diziam que isso estava obvio demais,tudo estava relativamente bem até chegar aos ouvidos de Ramon.
- Ei,Lara! - Gritou Ramon enquanto Lara subia as escadas para ir a sala. Os corredores já estavam vazios,Igor já estava na aula e Lara se atrasara por causa da ligação de sua mãe.
- Ei,Lara! Não me ouviu? - Disse ele subindo as escadas correndo.
- Ouvi! O que você quer?
- Conversar,podemos? - Ele sorriu
- Não,não podemos! Não temos nada pra conversar.
- Sim,temos.
Lara então virou-se e saiu mas Ramon a segurou pelo braço e a fez voltar. Lara se assustou,Ramon ainda segurava seu braço.
- Me solta! - Ela puxou seu braço.
- Vamos conversar?
- Diga!
- Está namorando mesmo o Igor? - Ele franziu a sombrancelha.
- Sim,estou! - Ela cruzou os braços.
- Eu exijo que você termine com ele agora. Meu filho só vai ter um pai e esse pai sou eu.
- Ele só tem o seu DNA,infelizmente,mas o pai dele apartir de ontem em diante se chama Igor.
- Se você não terminar com ele eu vou fazer coisas que você não vai gostar.
Lara riu ironicamente. - O que? Vai me matar?
- Vou destruir o motivo que fizeram vocês dois ficarem juntos.
- Do que você tá falando?
- Se essa criança ai dentro foi o motivo de vocês estarem juntos,vou acabar com ele.
- Como assim acabar? - Lara estava gritando.
Ramon puxou ela pelo braço e a fez chegar mais perto dele,ela tentou ir para trás mas ele era bem mais forte que ela. Ela se retorceu,se bateu contra ele para tentar sair mas não conseguiu e quando ele finalmente a largou,Lara se desequilibrou e caiu da escada. Nesse mesmo instante o sinal da escola soou e todos os alunos sairam das suas salas.
Lara estava desmaiada e sangrando. Todo mundo que viu fez uma roda em torno dela e alguns olhavam com reprovação para Ramon. Igor chegou empurrando todos que estavam na sua frente e conseguiu chegar até Lara.

No hospital,Lara conscientizou-se da situação bem rápido. Ela havia perdido o seu bebê. Toda dor e silêncio que havia naquele quarto de hospital fizeram Lara sangrar por dentro. Ela já tinha decorado todo o quarto do seu bebê,já imaginava as primeiras fotos dele,a primeira palavra,o dia em que ele aprenderia a andar. Ela sonhava com seu filho e com seu novo amor juntos,como uma família mas o mesmo garoto que brotou essa felicidade quase sem querer a tirou por querer. Desde que Lara acordou tudo que ela queria e conseguia fazer era chorar muito e algumas vezes caia no sono por causa dos sedativos.
Na sala de espera estavam Ramon,Igor,Olivia,Paul e os pais de Lara e todos contra Ramon está naquele lugar. Assim que o médico adentrou a sala,Igor quis saber das condições da sua amada.
- Ela está bem fisícamente,o problema dela agora é apenas emocional. Nenhuma mãe fica bem depois de ter o seu bebê perdido.
- Posso vê-la? - Apressou-se Igor.
- Desculpe,senhor,mas só pode ir um de cada vez e ela me pediu pessoalmente que gostaria de falar com aquele garoto de cabelo enroladinho. - Apontou para Ramon. - Seu nome é Ramon,senhor?
Ramon levantou-se e sorriu para o médico que o desprezou e o chamou com a cabeça.
Dentro do quarto onde Lara estava havia flores,balões rosa em forma de coração e tinha alguns presentes que ela não quis abrir. Duas batidinhas na porta e Ramon adentrou a sala. Lara estava com o olhar perdido,com o rosto virado para o lado contrário da porta.
- Queria falar comigo,princesa? - Sussurrou Ramon.
- Porque você fez aquilo?
- Eu não fiz nada,você apenas se desequilibrou. Acha que eu mataria nosso filho?
- Ele não era o seu filho,era meu!
- Eu o fiz junto com você,por tanto,era meu também.
- Que seja! Mas agora ele não é de mais ninguém por que ele morreu,Ramon. Você escutou isso? Ele morreu! Você matou meu filho.
- Não fique assim,podemos fazer outro se esse é o problema.
- As coisas não são assim! Não é assim.
- Você é muito complicada. Pensei que pudessemos voltar depois disso já que você não tem mais aquela criatura dentro de você mas eu estava errado. Você e o bundão do Igor se merecem,duas criaturas nada certas. Adeus Lara.
Antes que ela pudesse falar algo,Ramon saiu do quarto e passou as pressas pela sala de espera sem se dispedir de ninguém.
Igor então saiu correndo e entrou na sala de Lara para checar se estava tudo bem. Nada de novo,seu estado emocional estava abatido e agora pior com tudo que Ramon lhe dissera mas ela,de certo modo,estava feliz. Ela tinha Igor com ela. Ela tinha o seu amor consigo,então,o mundo que se dane.

Alguns dias depois,recuperada fisicamente e meio conformada com sua perda,Lara foi para casa e seus pais a receberam junto com seus amigos e alguns familiares. Tudo naquela casa era novo pra Lara já que ela não passava por ali há muitos dias. A primeira coisa que fez foi subir para o seu quarto onde pode a voltar a ser apenas a menina de 17 anos e não a mãe que estava sendo durante esses seis meses. Trancou-se lá por algumas horas e por fim percebeu sua secretária eletrônica piscando. Apertou o botão e ouviu alguns comentários do qual dizia que ela ficaria bem,que estavam torcendo por ela,que fizeram até uma comunidade pra ela em uma página de relacionamento e que todo mundo tá procurando por ela no myspace,até um amigo dela virtual resolveu ligar para dizer que sentia falta dela. Ela sorriu e chorou de tanta emoção ao ouvir todos os recados,mas faltava um. O último. Apertou o botão novamente e ouviu. Era a voz de Emma,irmã mais velha de Ramon.
"Ei,Lara,soube da sua perda e eu sinto muito,sinto mais ainda por que sei o que houve. Estou pessima também,sei que não é do seu interesse mais mas eu só queria te avisar que o Ramon sofreu um acidente de carro ontem e não sobreviveu,o enterro foi hoje de manhã e foi horrível por que só tinha eu e minha mãe no tumúlo dele. Eu sinto muito por te contar isso e por você,espero que fique bem."
Já não bastava aquilo tudo que tivera sentido nos ultimos dias? Ainda teria que viver com a consciência de que o primeiro cara da sua vida,o que ela amou pela primeira vez,estava agora morto? Era demais pra ela mas não sabia como reagir,não sabia o que fazer mas o mundo não acaba porque uma pessoa morre,ao contrário,a vida começa pra outra pessoa que nasce.

Dois ou três meses depois de todo os icidentes e acidentes,Lara estava feliz junto com seu amor. Igor se mostrara um garoto muito bondoso,muito carinhoso,trabalhador,paciente e muitas qualidades que só se encontrara nela. Ela tinha acertado na loteria. Ele era perfeito e a amava muito. Ela era grata por ter aquele homem na sua vida. Ela estava completamente apaixonada por ele.
Com as mãos entrelaçadas na dela,Igor sorriu e perguntou:
- Ei,Lara?
- Sim? - Ela levantou o olhar.
- Você quer casar comigo? - Ele sorriu.
Ela sorriu. Sorriso grande. Sorriso que berrava um sim.
E foi assim,somente assim,que a mocinha da história deve seu final feliz.

11/23/2010

Ultimo bilhete.

Eram pouco mais que cinco da manhã quando Ana levantou-se na cama do hospital e ficou esperando alguma coisa ou alguém ou alguma lembrança denunciar onde ela estava. Cheirava mal,fazia frio,só escutava os passos do lado de fora daquele quarto. Nada e nem ninguém entrava ali e isso estava irritando-a. Sem poder se mexer por causa de inúmeros aparelhos ligado ao seu corpo,ela gemeu alto para que alguém pudesse a escutar. Não deu outra e apareceu uma senhora na porta do seu quarto vestida toda de branco e uma plaqueta em suas mãos com um sorriso aliviado. Adentrou a sala e foi verificando se os equipamentos estavam em ordem mas antes que pudesse tocar em qualquer um deles,Ana pegou em sua mão. A enfermeira tomou um susto e a olhou.

- O que eu estou fazendo aqui? - Perguntou Ana ainda assustada com tudo.
- Querida,você teve algumas complicações com seu corpo e trouxemos você pra cá. O seu acompanhante está lá fora,quer que eu vá chama-lo?

Ana não disse nada,apenas afirmou com a cabeça e então viu a enfermeira sumir sem verificar os equipamentos e isso a deixou preocupada pois,já que estava ali para verificar que verificasse,ora.

Algumas batidas na porta fizeram os pensamentos de Ana sumirem como pó. A sua frente estava o seu melhor amigo,Pedro,com aquele sorriso angelical de sempre,mãos no bolso e cabelos super bagunçados. Ele fazia o tipo de todas as garotas,inclusive o tipo dela.

- Você está melhor? - Perguntou Pedro aproximando-se da cama.
- Eu estou ótima. Podemos ir embora?
- Daqui a pouco. Parece que vai receber alta daqui a pouco.
- Não gosto de hospitais,Peu. E eu estou seriamente encrencada com meus pais por não está em casa,não é?
- Não!Eu liguei para o seu pai quando chegamos aqui na madrugada de quinta e avisei que você estaria aqui pois tivera alguns problemas,ele foi meio rude como sempre mas disse que ligaria para ter notícias.
- Como sempre. - Repetiu Ana. - Madrugada de quinta? Hoje é terça-feira,acabei de ver na plaqueta da enfermeira. Eu não acordo desde quinta?
- É. Você estava em coma ou alguma coisa semelhante a isso,na verdade eu não sei muito sobre isso,só sei o que me contaram e como eles usam esse vocabulário cheio de bons modos,entendi o apenas:"Ela vai ficar boa logo" e isso me contentou e eu não quis saber o resto. Podemos perguntar,se quiser.
- Não quero. Me sinto bem,quero ir embora.
- Você terá que ficar na minha casa por alguns dias. Seus pais estão viajando ainda e não vão voltar hoje,só daqui há duas semanas,seu irmão é irresponsável demais pra cuidar de você. Já falei com minha mãe,então,não haverá problemas. Mas só se você quiser,claro.
- Quero sim. Quero mesmo.

As horas que se arrastaram por aquele dia foram mais longas que todos os outros dias,demorou desmasiadamente um tanto para que Ana pudesse se ver livre daquele hospital. Quando na casa do Pedro,resolveram alugar alguns filmes e assisti-los em casa.

- Não seria legal convidar sua mãe para assistir? - Perguntou Ana.
- Ela não está. Só somos eu,você e o filme.
Ana corou. Pedro corou. A sala foi invadida por bochechas rosadas,silêncio e olhares distraídos.

- Precisamos conversar! - Disse Pedro. - Acho que estamos esquecendo do quanto somos amigos e estamos indo pra um outro nível. Não que você não seja interessante. Você é. Demais,na verdade. Eu só quero uma melhor amiga e você é a unica pessoa que eu tenho. - Ele então afagou as mãos de Ana.

Silêncio. Pausa no pensamento. Colocando as palavras em ordem. Lágrimas querendo escorrer pelos olhos. Segurando o choro,respirando fundo e soltando suspiros.

- Não,é claro. - Ana fingiu sorrir - Somos amigos,melhores amigos. É,somos apenas isso.

Então Pedro sorriu. Ana sorriu. Cada um para o seu canto. O filme começou e eles estavam a,no mínimo,cinco metros de distância um do outro. As vezes,quando iam pegar a pipoca,a mão dela encontrava a dele. Eles se olhavam e riam mas não era aquela alegria por achar a mão do cara que tem seu coração nas mãos,era aquele sorriso do tipo "se você sorrir,sorrirei também".

Algumas longas horas depois,depois de uns dois ou três filmes,Ana cogitou a idéia de ir embora e se entregar ao seu irmão irresponsável que,pelo menos,iria escutar ela reclamar o quanto os homens são idiotas e iria fazer brigadeiro pra ela e só depois ela perceberia que era o capacho na vida de todas as pessoas com quem ela se relacionava.

- Vou dormir. - Disse Ana.
- Tem um problema. - Pedro coçou a cabeça.
- Qual?
- Vamos ter que dormir na mesma cama. - Franziu os lábios.
- Ah. Eu... durmo... - Nesse momento ela girou seu corpo pela sala tentando observar algum canto em que pudesse dormir. - aqui? - Apontou para o sofá. - Aqui! Dormirei aqui. - Ela sorriu e sentou com uma almofada em suas mãos.
- Não,Ana. Você não quer dividir a cama comigo,tudo bem. Eu durmo no sofá,não há problema.
- Não é isso,achei que você estivesse com essa história de melhores amigos. Só queria te poupar de uma noite sendo quase um casal. - Ela sorriu de lado.
- Eu quero uma noite sendo quase um casal. - Ele devolveu o sorriso torto.

Se aprontaram,se arrumaram para a noite de sono que ninguém saberia qual seria o fim. Cada um deitou de um lado da cama e cobriram-se cada um com um lençol. Sem sono. A estrela estava cheia. O quarto estava vazio sem o som das palavras de nem um dos dois. Se olharam e sorriram mais uma vez um para o outro. Se aproximaram. Ele pegou a mão dela e levou ao rosto dele enquanto ele colocava uma das mãos na cintura dela.

- O que está fazendo? - Perguntou Ana,em sussurros.
- Tendo uma noite de casal.
- Achei que era apenas dividir a cama.
- Achei que quisesse um casal verdadeiro.
- Não podemos continuar.
- Por que não?
- Sou virgem,sou sua melhor amiga e amanhã vai está tudo estranho entre nós.
- Eu sei,eu sei e eu sei. E se eu te quiser como mais que uma melhor amiga?
- Você disse o oposto disso há algumas horas atrás.
- E se eu não estivesse realmente querendo dizer aquilo? Apenas,sei lá,estivesse mantendo nossa amizade em uma bolha invisível para que estivesse segura.
- Ploc - Ana fez um som com a boca. - Sua bolha da amizade estourou. - Ela riu.

Ele riu e se aproximou mais um pouco. Tirou alguns fios do cabelo dela da frente dos olhos,acarenciou sua pele,descobrindo todas as curvas que aperfeiçoavam o corpo de Ana,Pedro se entregou e ela cedeu. Beijos,blues e poesia. Amor,sexo ou era sexo,amor? Tanto faz.

O dia seguinte foi estranho. Ana acordou sem as roupas,sozinha,em uma casa diferente,em um quarto diferente,com um perfeito masculino invadindo todo o seu pulmão. O quarto dele não era tão agradável sem ele lá. Seus olhos tentaram encontrar ele,procuram e procuram alguma pista. Nada. Vagou até o banheiro e viu um bilhete pendurado no espelho.

Ana,me desculpe,tive que ir. Luana me ligou. Não é incrível? Acho que vamos voltar. Te conto tudo quando eu voltar mas não me espere,posso ficar por lá mesmo. Um beijo,Pedro.

PS: Suas roupas estão no meu armário. Obrigado pela noite.

Pense. Reflita. Burrice ou apenas mais um cara idiota? Não importava mais. Você deu sua vida a ele naquela noite e ele foi atrás da vagabunda da ex-namorada dele que dormiu com,praticamente,todos os amigos dele. Espero que ela tenha te ligado e pedido pra vê-la só pra ela te lembrar o quanto babaca,imbecil e impotente você é. - Pensou Ana antes de pegar suas roupas do armário,vesti-las e ir embora sem olhar para trás.

Os meses que se passaram foram como uma dose de tequila para Ana. Fez muito bem mas em excesso daria uma ressaca terrível quando você se desse conta da burrada. Ana estava extremamente linda. Loira,alta,olhos azuis. O típico de sempre,exceto por um detalhe: A superioridade que alcançou.

Quando passava na rua ela era chamada de todos os apelidos possíveis,cantadas ridículas e assobios escrotos,diferente de quando era apenas aquela Ana boa moça,bom coração e amiga do mundo. Ops,pequeno descuido. Criaram um monstro ou o monstro apenas veio a tona? Não importava mais qual a era a verdade. Ela sabia o quanto ela podia causar e causou.

Volta às aulas. Pedro na porta do colégio de ensino médio com seus amigos hipócritas de sempre,rindo e falando sobre todas as garotas que eles já ficaram um dia. Ana,por sua vez,sempre só mas dessa vez acompanhada de uma beleza surreal e inacreditável que até então homem algum tinha visto. Seu cabelo tinha crescido,sua maquiagem agora era extremamente perfeita e suas roupas eram,com certeza,da ultima moda em Paris,o salto alto denunciava sua habilidade para equilibrar-se diante de tamanho alto-ego que agora tinha.

Pedro,entusiasmado,foi ao encontro de Ana sorrindo e querendo puxar conversa e ela,por sua vez,com sua cara de deboche,sua língua afiada e seu coração remendado.

- Nossa. Você está linda.
- Eu sei,queridinho. - Sarcasmo gritava.
- Você está diferente. Não sei,parece que cresceu,mentalmente,sabe?
- Enquanto alguns crescem outros apenas continuam os idiotas de sempre.

Pedro entendeu. Fingiu não entender. Continuou.

- Eu terminei com a Luana,sabia? - Ele parou e voltou a falar. - Na verdade,ela terminou comigo. Bom,naquele dia que eu fui na casa dela era apenas pra eu pegar algumas coisas de volta,sabe? Nada demais.

Ana riu pensando no quanto idiota,imbecil e estúpido aquilo menino se tornara diante de seus olhos naquele momento.

- Olha,eu entendo que você está aí,carente e morrendo de amores por qualquer rabo de saia que apareça na sua frente mas se você está pensando que eu vou ficar com você para depois sair sendo exibida como um troféu,esqueça.
- Não... A gente pode se encontrar? Marcar um cinema,quem sabe? Sair um pouco.
- Não,não podemos.
- Ah,qual é. Vamos ser um quase casal,novamente. - Ele sorriu maliciosamente.

Ana pensou. Cedeu. Aceitou a proposta. E la se foi,novamente,Ana e Pedro dividindo uma mesma cama,um só lençol,um corpo nú dentro do outro,em cima do outro. Pedro não soubera antes mas amava aquela menina,aquela menina da qual ele a tornou mulher. Ele estava disposto a te-la para sempre com ele,afagada assim no seu peito,fazendo carinho e rindo sobre bobagens como sempre foram. Estava disposto a dizer que a amava,que a queria como sua namorada mas quando criou coragem,Ana dormiu.

De manhã,Pedro acordou e procurou Ana pra sentir o seu calor matinal. Não viu nada. Procurou algum vestígio daqueles cabelos loiros por aquele cômodo e não encontrou. Levantou. Procurou alguma coisa. Celular,roupa,dinheiro,qualquer coisa servia só pra saber que era ele quem estava ali. Pegou a calça e viu o bolso. Um bilhete com um beijo deixado em vermelho no papel em branco. Desdobrou o bilhete e leu em voz alta.

Pedro,você não vai acreditar. O Adam me ligou e adivinha? Ele me pediu em namoro e eu aceitei,não é incrível? Estou indo morar com ele na França,talvez eu volte nas férias,mudei de número então não temos mais comunicação mas será sempre o meu melhor amigo.

PS: Obrigada pela noite. Ah,só queria te dizer que eu não te amo mais,babaca

11/21/2010

Mundo moderno.

Saia curta,tomara-que-caia,unhas rosas choque,cabelos loiros e maquiagem bem produzida.
Namora o capitão do time,é líder de torcida e anda com as mais bonitas.
Sai todos os dias,tem um carro da moda e mora numa mansão.
Tem tudo e o que não tem o papai compra,tudo para deixar sua princesa feliz.
Seu maior medo é uma unha quebrada,uma ponta dupla,três gramas a mais.
Faz dieta toda semana,parece modelo de passarela,sorriso estampado na cara.
Feliz com todo mundo,imita as celebridades,fala mal de tudo.
É popular,é patricinha,é tanta coisa que virou modinha.
Hoje em ninguém não é nada,seu pai fugiu com o seu jardineiro e sua mãe virou vadia.
Suas seguidoras fiéis seguem outra,seu namorado engordou e foi expulso do time.
Você perdeu seu cargo de líder de qualquer coisa para a novata.
Ô,como isso foi acontecer?
Acorda,queridinha,mundo moderno é assim.
Cuidado para não cair e seu salto quebrar.

11/03/2010

Quando se ama uma mulher...

Quero acordar mais cedo e vê-la abrir os olhos bem devagar,se espreguiçar na cama e quando olhar para o outro lado vou estar esperando seu sorriso matinal,um daqueles sorrisos que ela me dá mostrando todos os dentes mas pode ser um só mexendo alguma coisa na face,não ei de ligar,só quero vê-la acordar feliz ao meu lado mais uma vez.
Depois de me enrolar,se enrolar nos lençóis,levantará e partirá para um banho do qual eu não serei convidado e vou respeita-lá e imagina-la ali ensaboando todas as curvas do seu corpo,apagando cada digital minha dos seus quadris,deixando o seu cheiro e o meu quando se juntam ir ralo a baixo mas quando ela sair daquele banheiro ela voltará a ser a minha menina,a moça alegre e do sorriso aberto de todos os dias.
Irá cantarolar uma canção boba só por estar feliz em amanhecer mais um dia ao meu lado e partirá em disparada até a cozinha onde há de se alimentar e eu vou achar incrível o jeito como ela morde o pão deixando aquele resíduo de manteiga no canto dos lábios até a sua língua acha-lo e leva-lo garganta abaixo. Acharei incrível quando ela limpar as mãos no pano de mesa e logo depois afagar minhas mãos com o rosto cheio de farelos de trigo.
Acharei belo quando ela pegar o jornal e fingir estar interessada até a segunda folha e logo depois atira-lo em cima da mesa e pegar seu livro favorito e recitar mais uma vez a sua fala preferida,e eu vou achar lindo o brilho nos olhos dela quando ela repetir cada palavra que já está gravada em minha mente e vou gostar quando o brilho nos olhos aumentar quando a frase estiver falando sobre amor e automaticamente irá pairar seu olhar sobre mim.
Ela perderá a hora e sairá correndo,quase esquecendo de me dar um beijo no canto dos lábios e me lembrar que eu ainda sou o amor da vida dela. Ela vai ligar daqui há meia hora só pra falar que o trânsito em São Paulo é horrível e que o seu sonho é comprar um avião,irá me falar que preferia que eu estivesse dentro do carro dela contando as minhas piadas bobas e sujas para que ela pudesse esquecer das cores do semáforo e rir tranqüilamente do meu modo de contar piada fazendo os gestos com as mãos.
Desligará o telefone e voltará a ligar depois das duas da tarde quando seu nível de estresse estiver entrando em colapso,pra reclamar sobre o trabalho e só pra ouvir o som da minha voz,mas irá falar também sobre seu segundo sonho:abrir seu próprio negócio,e nesse momento vou soltar um leve suspiro tentando imagina-la tão independente que nem se quer precisará de mim e ela vai entender e me lembra,mais uma vez,que eu vou com ela por onde ela for e isso vai mudar meu dia,de novo.
Quando voltar para casa vai largar a bolsa na poltrona da sala e irá gritar meu nome e sair correndo ao meu encontro,mesmo sabendo se estou ou não ali,vai me encontrar lendo algum gibi e vai partir para o abraço me contando que no caminho de volta viu dois velhinhos e nos imaginou naquele momento,para sempre juntos,e eu ei de ficar olhando para seu rosto e atento a cada detalhe que a aperfeiçoava,agradecerei a Deus por te-la pra mim todos os dias em todos esse anos e não ter mudado o que sinto por ela nem um milímetro se quer exceto para melhor.
Vai me tirar da cama alegando que eu não tenho feito nada de interessante e me arrastara para varanda para ver o sol se pôr,vou afagar sua cintura e então ela deitara sua cabeça sobre meu ombro e envolvera suas mãos nas minhas cinturas,também e ficaremos ali vendo o sol se pôr e esperando o dia que virá amanhã e lembrarei naquele momento que é ela e nada mais que ela que me faz bem e pensarei em como eu seria se eu a perdesse um dia e eu não consegui mais me vê sem ela. Eu percebi que iria ser eterno.

Seis horas da manhã,o relógio despertou. Mais um sonho de um cara comum. Do lado,ninguém para amar ou abraçar. Bem vindo ao mundo real,onde a perfeição só está presente em um lugar que ninguém pode ver,além de você.

Tic-Tac. Tac-Tic.

O relógio bate,apressado,me roubando os segundos,me deixando mais velha a cada momento e não para,não têm dó de mim nem do meu coração partido,muito menos dessa vida partida que levo.
Tudo aqui me deixou saudade,sinto falta de tudo,até do cheiro do perfume esquecido no seu corpo da manhã do dia anterior. Minha maior saudade ainda há de chegar pois sinto falta de algo que ainda não vivi e que já deixei para trás.
Sinto fome de comidas que ainda nem foram fabricadas,de amores que talvez eu nem ei de viver,de noites de insônia que não ei de ter.
Brinco de não me importar,de deixar o tempo passar,de não fazer nada esperando que ainda sim algo mude.
O relógio bateu,é que já passa da meia-noite e ainda estou no meio da semana com um coração meio abandonado,com um dos pulsos meio cortado,com opiniões meio que erradas.
Mas veja bem,tenho aprendido muito com essas sobra de tempo e entendi que nem adianta correr quando não se quer sair do lugar por que sempre voltará para o ponto de partida.
Esse envelhecimento precoce de vida,de juventude,de saúde,me faz ir ao espelho todos os dias com cara de quem viveu mas não vive mais e se perguntar se há algo errado.
Vejo minha alma através do espelho,ouço-a mandando-me viver mas sem essa,preciso de motivos sólidos para continuar respirando,e nem me diga que com o tempo isso passa por que estou esperando passar há muito tempo.